Lendo os posts do Celo a respeito de impressao equivocada veio à mente esse assunto que foi tema central das minhas aulas nas últimas quatro semanas: educação multicultural, preconceito e supremacia. As vezes acho que os americanos tem alguma razão, outras acho que eles simplesmente 'don't get it'!
A primeira idéia difundida nos Estados Unidos que faz meu cerebro ferver é o conceito do 'melting pot' que eles acreditam ser. Sério, pessoal! Quando as coisas derretem, elas se misturam, não ficam justapostas como é a sociedade americana, cheia de nichos, guetos, zonas. Quando eu olho à minha volta o que eu vejo é uma salada mista, o pepino até interage com o rabanete, mas cada um é um, tem sua cor, seu sabor, seu formato, seu tamanho.
Durante as aulas acima mencionadas assisti um filme chamado The Color of Fear, dirigido pelo terapeuta Lee Mun Wah. O que eu entendi que deveria ser um processo de abertura, comunicação e descontaminação do preconceito para todos os homens presentes rapidamente se transforma em uma caça ao homem branco. O homem que se torna objeto de ataque certamente diz muitas coisas que fazem cair o queixo, mas me agoniza perceber como ele esta sozinho naquela situacao. Os outros homens no grupo argumentam que é assim que eles se sentem em seu dia-a-dia mas, como eu digo para as criancas: voce gosta quando acontece com voce? Não? Entao vamos encontrar outra maneira de fazer o amigo perceber que nao é legal em vez de repetir com ele o que a gente já sabe que não é legal.
Por outro lado, no Brasil nunca fui solicitada a rever meus conceitos mais profundos para me tornar uma educadora mais capacitada - fiz um pouco disso na análise que, aliás, segundo Freud, é o caminho para quem quer ser bom professor. Inclusão, enquanto estive em contato com as escolas brasileiras, era uma coisa muito teórica, rara e pontual. Aqui, em um colégio que é considerado abaixo de faculdade (o community college) tive professores que desafiaram minhas ideias, não por serem diferentes das deles (embora isso tambem, outro dia falo da Disney e dos Dinossauros), mas por serem cristalizadas e herdadas, não digeridas e escolhidas. Inclusão é fato; na minha classe mesmo tinha alunos que eu, com meu preconceito, pensava que não deveriam estar lá por não terem o nivel de alcance intelectual que eu achava necessário. Mas aí entra a questão do direito do cidadão. Delicado, esse equilíbrio.
O que estraga tudo é a necessidade que o americano de modo geral tem de encontrar receitas de perfeição para não ter que pensar (estarei sendo preconceituosa, ou falo de conceito formado empiricamente?). O que é fato se transforma em lei. Sabemos que musica representa parte de uma cultura e que pode ser explorada para revelar outros aspectos de sua origem. O que acontece aqui é que professores passam a tocar samba na sala de aula e acham que estao representando o Brasil e realizando educação multicultural e inclusiva. Então para contrabalançar, vem o professor de educação multicultural do meu curso e fala pra todo mundo deixar a música e a comida de lado - porque se deixar usar, ninguém vai pensar em outra possibilidade ou explorar mais profundamente as culturas riquíssimas que temos à nossa volta.
Comecei a escrever pensando em meus próprios preconceitos, em como eu cresci mainstream e agora me encontro minoria sem na realidade me sentir minoria. Sou protegida, e logicamente não reclamo. Mas percebo como um grande desafio para quem cresce em uma cidade metropolitana confiar no próximo e não cruzar a rua quando vê um sujeito mal vestido vindo em sua direção.
Em parte é preconceito, em parte, conceito formado.

Guguinha, bem-vinda!!! :-D
Quanta coisa! Melting pot é seu artigo, denso, que aponta tantas inquietações, fiquei com a cabeça super-excitada :-)
Concordo em número, gênero e grau (tudo melted, não cada um por si... hehehe) com a diferenciação entre o "melting pot" e a miscigenação ativa, a antropofagia cultural que o Brasil, na raça (ou melhor, na mistura étnica, intencional ou não) acabou promovendo, assim como algumas outras nações - Cuba, Colômbia, por exemplo.
A África é um caldeirão mais estranho ainda, em que burocratas europeus decidiram traçar linhas no escritório, enquanto nações se estrangulavam independente do passaporte. Os efeitos ainda estão por vir.
Na Zâmbia, são 72 idiomas, segundo um acadêmico indiano que estuda nos EUA. Perguntei a um taxista e ele não tinha idéia, mas sabia falar 7...
Acabo de escrever um artigo (em espanhol) sobre a antropofagia cultural brasileira, predicando que a cultura chilena reconheça seus elementos nacionais em vez de ficar consumindo fast-food enlatado dos EUA. O pop também é legal, não é o único legal... Assim que sair na web, eu passo o link!
abs
Gu, preconceito é assunto muito complicado e delicado, não? Tem muito o que falar e a cabeça ferve mesmo, como o Celo disse. Preconceito é sempre burro. É generalizante e para mim toda generalização é errada. Como diz a música cantada pela Rita Lee: "nem toda brasileira é bunda". Muitos são radicais defensores de alguma minoria espalhada pelo mundo e sem perceber acabam sendo preconceituosos contra um outro alguém. É preciso olhar o indivíduo e não desprezar o contexto. Qualquer preconceito, contra qualquer pessoa cala fundo. Lembro-me que me dei conta da minha cor quando cheguei em Angola. Eu era "a branca" e os negros não achavam que isso era preconceito. Descobri que eu era também "a brasileira", para o que tinha de bom e de ruim...mas e eu? Quem me via? Aí concordo com você totalmente quanto ao desperdício de tentar achar receitas prontas que solucionem alguma questão, pois todas vão invariavelmente generalizar. E é aí que tudo recomeça.
Estou louca para saber mais das questões discutidas por aí!
Bjs, Nana
Nana, sempre temos que ter cuidado ao generalizar que toda generalização é errada, porque se toda generalização é errada, não podemos generalizar que toda generalização é errada, não? hahaha, evidentemente é uma brincadeira.
Interessante como a história do preconceito está latente em qualquer parte, mesmo "incluído", tendo trabalho, transitando mais ou menos pela alta sociedade.. ao ser estrangeiro, automaticamente somos minoria e isso vem com uma carga muito interessante. Para quem sempre se considerou "incluído" é uma experiência fundamental para tentar compreender todos os guetos do mundo. Ou ao menos, os que sempre estiveram ao nosso lado e nunca nos sensibilizamos.