Ninguém x Todo mundo

Acredito que todo mundo que muda para um outro país se sinta bem solitário, que seja no início da estadia. Os tímidos demoram um pouco mais e os que não trabalham nem estudam provavelmente mais ainda...

Eu sou tímida e não trabalho/estudo no momento, então sem contar meu bebê de 7 meses e meu marido que só chega à noite, estou quase sempre sozinha.

Isso não é uma reclamação e nem motivo de sofrimento, é apenas uma constatação: não conheço absolutamente ninguém aqui!

Sempre imaginei que os europeus eram mestres na arte de se virar sozinhos. Já encontrei muitos pelo mundo e morando aqui vejo muita coisa feita para você poder fazer as coisas sozinho e/ou sem a ajuda de ninguém.

É possível comprar 1/2 pepino no supermercado, as cadeiras de roda são motorizadas, você mesmo passa sua compra no caixa, enche o tanque do seu próprio carro, abre a porta do seu prédio, enfim, não é preciso ter ninguém aqui, é?

Sair do país das babás, faxineiras, cozinheiras, cobradores, frentistas e psicanalistas e vir para o país do DIY pode ser um grande desafio.

Julguei estar totalmente preparada porque tenho minha filhota e um super carrinho auto-suficiente compatível com os standards europeus nesse quesito. Ele tem um modo de colocar as rodas (é bem simples, vc faz sozinha) que permite subir e descer escadas com facilidade.

Então ontem, no primeiro dia que se pode dizer que era primavera, decidi ir ao parque e sentar na grama como todo mundo. Claro, sou tímida e vou fazer tudo igualzinho ao que acho que o povo local faz...será que eles também sentam no cocô de pomba na grama ou sou só eu? Será que eles sempre tem um paninho para sentar ou não ligam para a marca que fica na bunda? Mas isso não vem ao caso.

O caso é que quando resolvi ir embora tive que enfrentar as escadarias do parque. Tenho meu super carrinho, então lá vou eu subir orgulhosa e sozinha como uma européia.

Eis que surge, já no primeiro degrau uma senhora para me ajudar. "I´m fine, but thanks". No quinto degrau surge um tipo jogador de rugbi "Thank you, but it´s ok". No décimo, uma adolescente me pergunta se quero ajuda. Digo que está tudo bem, as amigas zombam dela e quase peço desculpas por isso, mas continuo sozinha. No décimo quinto degrau (era mesmo uma escadaria) meu carrinho simplesmente levanta e quando olho, já tem um tipo iraquiano me ajudando.

Estive errada duas vezes pelo menos: como paulistana estou acostumada a estar ocupada ou desconfiada demais para ajudar e ser ajudada e que talvez o europeu não seja tão sozinho assim.

No final, percebi que ainda não tenho amigos ao redor mas, no país onde taxista dá até carona, posso ter muitos bons estranhos que não me deixam sozinha.

 

nana, que artigo mais lindo, muito sensível, íntimo, adorei. Muito inspirado. Em todo caso, quem sabe aqui a gente se faz companhia ;-)

Me chamou a atenção a diferença entre oferecer verbalmente ajuda e fazer de fato; é algo que eu tenho refletido. Pontos para o iraquiano.

beijos

Que lindo texto! Sabe que o período em que mais me senti sozinha foi mudando de cidade - no próprio Brasil, veja só. Nem tinha a desculpa de estar em uma cultura diferente.

São nessas horas que as mídias sociais fazem de fato uma diferença em nossas vidas, ao menos eu, me sinto mais próxima de minha familia e amigos, mesmo quando só espiando as fotos deles no Facebook.

Espero poder encontrá-la aqui mais vezes!

Maria, uma boa (espero!) estranha

Nana, adorei seu texto. Eu moro na Suíça e meu receio é contrário, hehe. Logo depois que mudei para cá e até agora não deu pra me sentir assim tão sozinha... foram tantas visitas, filha chegando, montando casa, aula de alemão, marido que sempre arruma programas para a gente fazer, amigos sempre com programas pra gente fazer... Tenho medo que me acostumando aqui, aí sim comece a sentir solidão. Bom, mas espero que não!! E isso de ajuda com carrinhos eu via muito antes de ter bb e hoje com carrinho, tirando no tram (bonde), eu tb prefiro subir e descer escadas sozinhas! hehehe me atrapalho com ajuda :P

Neideeee

Que texto lindo, bem escrito, cativante! Gargalhei com a historia do coco... hehe... Eh doido, curioso, interessante como a gente se sente muito sozinha mesmo quando tem pessoas conhecidas. Eu as vezes acho que eh porque nao eh o nosso povo, as pessoas com quem crescemos. Por outro lado tem tambem esse aspecto da cultura e das ideias pre concebidas que muitas vezes contaminam nossa percepcao e ate nossa reacao ao que vivemos.

Amei seu post, ouvi sua voz e me senti conectada na sua vivencia.

Thanks for sharing!

bz

Guga
*^^*

Se você morasse em Paris, te convida para vir em casa ver o desenho e cantar as músicas do filmes comigo! E ainda te ajudava com o carrinho do bebê nas escadas! ;D

Parabéns, o texto está super bonito! Me identifiquei totalmente.

Ingrid.

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