O Professor Táxi


O Professor Táxi

Aloisio da Cidade

 

Tem coisa que a gente sabe que tá errado e mesmo assim passa um bom tempo arrastando, com soluções cosméticas para melhorar a aparência ou simplesmente escondendo a sujeira embaixo do tapete, de forma que poucos conseguem ver que essa sala elegante na verdade é uma grande latrina. Mas o tempo é sábio e a coisa vai ficando tão feia que mais e mais pessoas percebem o desajuste, mas já ninguém tem coragem de enfrentar, adiando como pode para o próximo responsável. Isto pode acontecer na vida privada, nas relações sociais, numa equipe de futebol, nos negócios e, como estamos vendo com clareza agora neste país, nos governos.

O tema da educação nunca deixou de ser preocupante, nunca deixou de ser um tema em pauta. Na educação superior o engano dos créditos e a explosão das universidades privadas provocou o recente aumento da cobertura da educação superior. Era o último movimento desesperado e reformista da Concertación, tratando de empurrar mais sujeira debaixo de um tapete. Mas já estava difícil ocultar o cheiro podre, e os pinguinos denunciaram.

Em qualquer processo de cambio social importante a tendência inicial é atribuir a um evento factual, pontual toda a carga de um processo histórico, como o assassinato do archiduque Francisco Fernando de Austria, desencadeando a primeira guerra mundial; ou a autoimolação de Mohamad Bouazizi na Tunísia ou o brutal assassinato de Khaled Saeed no Egito como origens da primavera árabe; as supostas armas de destruição massiva, ou até mesmo o atentado às torres gêmeas como desculpas para o aumento do intervencionismo estadounidense no mundo, sobretudo no mundo árabe. De igual forma hoje, no Chile, atribui-se a crise da educação aos conflitos de interesse do ministro Lavín, ou à capacidade de liderança da jovem e determinada Camila Vallejo. No entanto, assim como nem todo assassinato leva a uma guerra ou a uma revolução, não é justo atribuir a efervescência do movimento pela educação – já deixou de ser movimento estudantil há tempos – a uma manipulação política, a uma causa pontual ou a uma pessoa. Os grandes líderes são aqueles que fazem visíveis as necessidades latentes da coletividade de seu tempo, e a educação livre e gratuita é uma das necessidades mais latentes e uma das causas mais potentes como movimento social no Chile do século XXI.

A causa já tomou outras dimensões, porque a questão da educação é a ponta de um iceberg que aponta para os problemas estruturais no âmago da sociedade mais neoliberal da América Latina: a mercantilização de todos os serviços e bens de necessidade básica. Não é de se estranhar, portanto, que se unam aos descontentes os operários do cobre, os Mapuche e outras minorias étnicas, os microempresários, os desempregados, os doentes, os aposentados, as donas de casa, os estudantes secundários, os gays, até mesmo os funcionários públicos e, por que não, os milhares de jovens recém-formados cansados de caçar um emprego decente com seu diploma de brincadeira e seus vinte milhões de dívida.

 

Professor Táxi

Mas já que o tema do momento é a educação, me parece que faz falta dar a conhecer o panorama do ponto de vista dos professores, e nesta qualidade, lhes vou contar como vive um professor universitário no setor privado. A grande maioria dos profissionais e acadêmicos que optam por viver desta carreira, o faz por paixão. Isto é ainda mais verdadeiro para países que não dispõem de políticas de valorização da carreira do professor, como aqui no Chile, e o valor da remuneração é completamente desproporcional à importância social e à responsabilidade que implica o trabalho de um tutor, quem pode ser determinante ao definir os valores, a capacidade crítica, o espírito cívico, as técnicas e conhecimentos nos quais o jovem vai se apoiar para inserir-se na vida laboral.

Mas isso não é tudo. O professor que se dedica em tempo integral, raras vezes possui contrato indefinido com sua organização, em particular se não estiver disposto a ter alguma função burocrática – ou seja, não acadêmica em seu sentido mais estrito, tais como coordenação ou secretariado. O resultado é que este professor se vê obrigado a passear por diferentes faculdades exercendo seu oficio com um vínculo institucional mínimo, muitas vezes sem nem mesmo um contrato – quando há contrato, é por período limitado – saltando de um lado a outro da cidade ao longo do dia, ganhando o carinhoso e deprimente status de ¨professor táxi¨.

Com ou sem contrato, ao ¨professor táxi¨ não se pagam períodos sem aula. Vida boa vida de professor: tem 3 meses de férias no verão, mas não pode sair de casa porque não tem trabalho, muito menos dinheiro. Pesquisa, nem pensar! O professor que recebe alguma remuneração por corrigir ou preparar aulas, por investigar ou escrever um artigo, por participar de conferências e seminários, que atire a primeira pedra.

Há instituições que castigam o professor que falta à uma aula, não remunerando. O pagamento é por hora e, se não há aula, não há dinheiro. No entanto o professor não tem como controlar os feriados, se fica doente, e menos ainda o calendário escolar que muitas faculdades comprimem ao máximo porque assim recebem 10 meses de pagamento do aluno e pagam 8 meses de serviço aos professores táxi. Ademais, estou pra ver uma universidade que deixe de cobrar do aluno que não comparece a uma aula...

 

Flexibilidade ou Precariedade Laboral?

O professor universitário nunca sabe quanto receberá no próximo semestre. Alguns cursos dependem do número de inscritos, porque o ¨negócio¨ deve ser financeiramente rentável. Outros comprimem e juntam cursos de áreas diferentes para fazer uma grande aula e espremer ainda mais a mais-valia da hora do professor, além de aumentar o tamanho dos cursos, o que pode colocar em risco a qualidade da atenção ao aluno e seu nível de aprendizado.

Os problemas e a falta de estabilidade laboral fazem com que muitos dos que têm vocação para a docência se refugiem em outras profissões ou complementem sua renda com outros trabalhos. Uma das consequências diretas desta realidade é um aumento notável da rotatividade do professorado, além de que aqueles poucos professores contratados para planejar e pensar qualitativamente a vida acadêmica de sua carreira – como avaliando a malha curricular, pensando atividades extraprogramáticas, buscando programas de intercambio, publicando ou investigando – acabam tendo que passar mais tempo procurando novos professores e treinando-os ou ainda resolvendo entraves burocráticos. É tamanha a sobrecarga e a urgência de articulação de professores que mais de uma vez já fui contratado sem sequer entrevista: por telefone ou e-mail. Claro que sou um professor espetacular com um currículo extraordinário, mas nem eu mesmo me contrataria sem um tête-à-tête.

Outra consequência possível é que os alunos sejam reféns dos horários dos professores: já tive alunos que reclamaram de aulas aos sábados, sexta-feira as 22h (quando o curso é diurno, supostamente), ou períodos insanos de aulas (de 8am a 19pm) além de janelas de 2, 3, 4 horas entre uma e outra aula para adequar os horários a um sistema que, no fim, se orienta para dar lucro em primeiro lugar e ensinar, quando muito, em segundo.

Todos estes elementos são sintomas da liberalização da educação sob a égide neoliberal. E estes problemas, antes de rumar para uma melhor solução, enfrentarão problemas mais agudos se as regras do jogo (ou a falta de regras, segundo predicariam os Chicago Boys) continuarem sob a mesma lógica.

Você, pai, que vai matricular seu filho em uma universidade, experimente perguntar à diretora do curso respectivo, quantos professores são contratados de forma indefinida? Avalie qual era o quadro profissional no inicio da carreira e compare após os cinco anos de estudos.

 

Movimentos sociais e democracia

É chegada a hora de arrancar o tapete. É hora de que todos os descontentes se manifestem. É hora de que o povo chileno saiba que tem muita coisa errada e que um sistema democrático é obrigado a ouvi-lo e responder plácidamente à voz da maioria. Democracia não é eleição mas sim um sistema que provê instrumentos para que essa voz seja canalizada em governo.

Hoje a voz grita, e não vai calar. Nem com guanaco, muito menos com um discurso retórico de um presidente sem brilho com um boneco porfiado ao lado e doze mil bandeiras nacionais ao fundo. Nem mesmo com a Copa América para distrair. Os estudantes e os ecologistas deram um estrondoso primeiro passo, mas os descontentes são muitos. E o poder desta coletividade pode derrubar governos, ministro após ministro, e mexer, finalmente, na macro-estrutura econômica e em um sistema político absurdo, ambos blindados graças à pseudo-constituição que os políticos da chamada transição se viram encurralados e obrigados a tragar em uma desesperada concessão em busca da liberdade política para o país.

 

Para saber mais siga a ¨Agrupación de Profesores a Honorarios¨ no twitter: @aahchile ou veja a apresentação abaixo


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